Quartzo Amargo

Às vezes me flagro pensando em você,

Naquelas horas imutáveis de implosão da mente,

Em que gostas de sangue escorrem dos iludidos melancólicos

Ao ferirem seus pulsos com o quartzo amargo

Subitamente, vem à tona o rancor misturado ao orgulho

Que (em vão) luta contra esta hora eterna.

Uma luta em que os anjos com a espada da emoção

Nada fazem por não saberem o que está certo:

Se é a doce e preciosa ilusão trazida pelos melancólicos

Ou o rancor e o orgulho criados pela razão…

 

Sonho profundo e rútilo dos mares inquietantes

Porque chorar por um amor ludibriante?

Não sabes se ela pensa em você…

– Não te rias de mim, meu sonho lindo! –

Por ti meu orgulho matei pra em você morrer.

Por ti nos sonhos morrerei sorrindo!

 

Poema: Lincoln Moreira

 Pintura: Tetsuya Ishida

Caminho ao Luar

pintura: Heater Brown Truman

Sento, vejo, venta e a lua
Paira, pousa, mostra e longe
Ilumina a noite e as nuvens,
E o tom azul escuro desse céu
Noturno, transitório,
E a estrada agora é banco,
E o caminho nem é tanto,
E a liberdade já é tão grande,
Que é difícil até de carregar
Essa saudade, essa vontade de seguir.
Mas fico aqui, catando desse chão
Os versos que lancei pra ti.
Contudo, levanto,
Sigo pela rua,
Como a lua,
Perdido num quebra cabeças
Entre cores e nuvens.

(Ítalo Gabriel)

Seres

 

 

E o que é a solidão,

Senão uma escolha.

Um sofrer um tanto vão.

Pois que nessa bolha que chamamos mundo

Existimos não somente em nós.

E porque insistirmos em estarmos sós?

Já que imersos nesse mar de gente

Estamos cá, presentes,

Lutando contra estados descontentes

Esquecendo o que nos faz mais próximos

Do que nos é em essência, humanos.

 

E o que seria do NÓS

Se somente sós seguíssemos?

Como a carga desses passageiros:

Paranóia, delírios, devaneios,

Tornar-se-iam menos pesadas?

 

Ah louco mundo,

Quero ser mais solto,

Mas permita-me estar sempre envolto

Nessa aura amansadora,

Desses seres.

Meus amigos.

 

Ítalo Gabriel

 

(in) ConsciÊncia ?!

Sergei Kharlamov

 

Tem horas que me digo viva,

Mesmo que o mundo me chame morto…

Mas sempre me ocorre a dúvida,

Será que o mundo é morto?

As vozes da janela me dizem pule!

Mas a musica no telhado diz suba…

As nuvens em sussurros dizem venhas,

Um louco no hospício da alma diz cante…

Mas eu penso que estou ficando surdo,

Lanço-me a fazer o que nem sei…

Mesmo quando não quero,

Mesmo quando não posso.

Agora como escapar das correntezas?

Que correm do rio de dentro,

Do outro meio deste lado de cá!

Eu prefiro o sono letal à insônia insana,

Um sorriso senil a um  beijo sínico…

Aliás, nem prefiro…

As preferências são fatais
(Cleriston Rodrigues)

Palafitas

 

Mostra o rosto da pobreza, da miséria.

Cara triste, séria.

Estampada entre as tábuas,

Entre as brechas de madeira

A pasta de imundície cinza

Corre entre as linhas

Das casas,

Das cascas dos caramujos,

Do igarapé,

De pé, bem na beirada,

Um bebê.

O lodo que se esvai de negrume,

Na água que não reflete mais nada.

As latas, os copos,

Sebos e corpos,

Sobre o chão de frestas,

Palafitas.

 

(Ítalo Gabriel)

E-X-C-L-U-S-Ã-O

-Passos apressados meu amigo?

É apenas um mendigo.

Com uma corda pendurada

Na bermuda perfurada

Já rasgada

Cheia da sujeira do sujeito da calçada

Espalhada feito um colchão.

Num é isso não?!

Vida é de cachorro louco,

Lixo já não é tão pouco.

Já que se encontra gosto

Em qualquer sujo pedaço de pão.

– Seja ali, seja aqui não.

Que o teu perfume mais que barato,

Já é apenas substrato,

Do nome que te deram em vão.

Teu problema amigo,

Já não é mais solidão.

Estás por fora da pirâmide então.

Nós que somos animais.

(Ítalo Gabriel)

Desenho: Deuk Viana

Livres Prisioneiros

Já não quero sempre o mesmo jeito, o mesmo gosto, a mesma forma de escrever. Falta pouco pra esse mundo mudo mudar, falta pouco pra essência do ser significar mais do que um.

Mas, sei eu? Sabes tu?

Apego-me a tais laços, me entrego, me engano e disfarço. Seria isso um ato, uma peça? Que prega entre as paredes atravessadas do existir, mais uma daquelas formas de agir, mais uma máscara do metamorfo, louco, louco, louco!

Prisões ensimesmadas, enclausuradas em solitárias, portas abertas. Que estranho! Porque não é simples atravessar? Esses portais da alma, frestas no universo, inverso, em verso, em canto, em dança, em arte! Em força de expressão de liberdade. Somos almas livres cheias de vaidades. Somos a beleza de existir entre angústias, entre medos, entre amores e desejos. Livres prisões. Um vício, o malefício mais satisfatório. Quem consegue escapar?

Ítalo Gabriel

Pintura: Mike Worrall – Garden of Melancholia, oil on canvas, 122x182cm, 2004